“TRANSBORDA” PROTAGONIZA ARTISTAS COM DEFICIÊNCIA
O circo desafia os limites. Em “Transborda”, no entanto, o maior salto acontece antes mesmo de o artista subir ao trapézio. O espetáculo, que estreia no dia 18 de julho, às 16h, no Galpão Cine Horto (rua Pitangui, 3.613, Horto), em Belo Horizonte, propõe uma mudança de perspectiva ao colocar artistas com deficiência no centro do processo criativo, transformando a acessibilidade em parte da própria linguagem artística. A montagem reúne números de trapézio, tecido, lira, malabares e acrobacias em uma narrativa construída a partir das vivências de Ana Cris Pimenta, Gabriel Aquino e Naty Cândido, protagonistas da esquete de circo contemporâneo desenvolvida junto ao Instituto Cultural CircoLar (ICC). A entrada é gratuita mediante a retirada de ingressos no Sympla.

De acordo com Letícia Oliveira , a proposta foi construir uma obra que contemplasse diferentes corpos, experiências e formas de perceber o mundo. “O projeto nasce da inquietação e do desejo de que todos os corpos ocupem todos os lugares, sendo a definição de quais lugares são esses uma escolha da própria pessoa, e não uma condição imposta pela falta de oportunidades”, explica.
Foi essa proposta que inspirou o nome da montagem, conforme revela Deisy Castro. “Transborda deriva da ideia de ultrapassar as bordas, exceder limites e expandir possibilidades. O espetáculo simboliza o rompimento de barreiras físicas, sociais e atitudinais que historicamente limitaram a participação de pessoas com deficiência nas artes. Ao colocar corpos diversos no centro do picadeiro, fazemos transbordar representatividade, acessibilidade e novas possibilidades estéticas, reafirmando que a diversidade não é uma exceção, mas um elemento constitutivo da criação artística”, afirma.
“Transborda”, projeto contemplado no Edital FEC 08 040825 – Minas em Cena (Protocolo: 2025.2508.00570, é resultado de uma pesquisa iniciada em abril de 2026, quando os artistas foram selecionados para participar de uma imersão gratuita em técnicas circenses. Ao longo de dois meses, eles experimentaram diferentes modalidades, participaram da construção da dramaturgia e contribuíram diretamente para o desenvolvimento da encenação. “Nos primeiros encontros, professores e participantes vivenciaram diferentes modalidades circenses, equipamentos e técnicas para identificar, em conjunto, os lugares de conforto, os desejos de experimentação, os desafios e as potencialidades de cada corpo. Só depois começamos a construir propostas específicas para cada artista. A dramaturgia surgiu das vivências, das experimentações e das trocas realizadas durante todo o processo”, conta Lucas Castro.
Para a dançarina e cadeirante Naty Cândido, o processo a fez descobrir possibilidades. “É uma experiência incrível, de experimentar mesmo, de conhecer novas possibilidades do meu corpo e dos espaços”, revela. Gabriel Aquino, que é diretor da Vias Acessíveis e artista com deficiência visual, o trapézio parecia impossível. “Me colocou nesse lugar novo com meu próprio corpo. Isso foi muito, muito legal para mim. Me deu uma autoconfiança muito grande. Eu lembro de uma das primeiras vezes em que fiquei na frente do trapézio e pensei: ‘Eu não faço. Como é que meu corpo vai subir aqui? Não existe esse movimento!’. Hoje isso já está natural”, confessa.
Para a equipe do CircoLar, o surgimento do espetáculo é uma das experiências mais marcantes. “As primeiras aulas com o Gabriel foram, sem dúvida, o momento mais marcante para mim. Como professor, uma das maiores recompensas é acompanhar um aluno descobrindo que é capaz de ir muito além do que imaginava. Conquistar a confiança necessária para que ele se lançasse em uma queda no trapézio, sem ter qualquer referência visual, simbolizou muito mais do que um avanço técnico. Representou a superação do medo, a entrega ao processo e a certeza de que a confiança pode abrir caminhos antes considerados impossíveis”, relembra Lucas Castro.
Ana Cris Pimenta, artista surda oralizada, intérprete e professora de Libras na Uai Libras, também viu as próprias percepções mudarem ao longo da formação. “Eu tive muito interesse em aprender. Você olha e pensa: ‘Será que eu consigo fazer isso? Será que uma pessoa com deficiência tem capacidade de fazer circo?’. Eu pensava assim. Hoje eu posso dizer: consegue! Lembro de quando falava isso e agora estou conseguindo fazer exatamente aquilo que parecia impossível”, conta.
Durante os ensaios, a equipe percebeu que o aprendizado acontecia em todas as direções. E essa construção coletiva fez com que a acessibilidade deixasse de ser um recurso oferecido ao público e passasse a orientar a criatividade. “O maior desafio foi construir um espetáculo verdadeiramente acessível para quem está no palco e para quem está na plateia. O artista e os espectadores possuem necessidades específicas. Isso exigiu repensar continuamente a direção, a dramaturgia, a sonoridade, o tempo das cenas e os recursos de acessibilidade. Não adaptamos um espetáculo pronto; desenvolvemos coletivamente uma obra em que a acessibilidade faz parte da linguagem artística desde o início”, destaca Lucas Castro.
Além de intérpretes de libras e audiodescrição, a apresentação contará com espaços reservados para pessoas com deficiência. Para o CircoLar, “Transborda” representa um marco. “Embora seja o primeiro projeto destinado especificamente ao protagonismo de artistas com deficiência a conquistar recursos para sua realização, a acessibilidade já faz parte da história do Instituto. Agora, damos um passo além ao colocar esses artistas no centro do processo criativo. O projeto demonstra que arte e inclusão são indissociáveis quando a acessibilidade é compreendida como parte da criação, e não apenas como adaptação”, afirma Kênia Silva.
“Transborda”
Data: 18 de julho de 2026 (sábado) – 16h
Local: Galpão Cine Horto (rua Pitangui, 3.613, Horto) – BH
Classificação: Livre
Ingressos: Gratuitos (retirada pelo Sympla)
Mais detalhes: https://institutocircolar.org.



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