Espetáculo Karamazovianas faz sua estreia nacional no CCBB BH
Somos capazes de atingir o mais alto ideal e, ao mesmo tempo, a queda mais vil. Karamazovianas – peça que faz sua estreia nacional no dia 6 de novembro no Centro Cultural Banco do Brasil Belo Horizonte (CCBB BH) – investiga esse abismo que divide a existência humana. Questão central do livro “Os Irmãos Karamázov”, do escritor russo Fiódor Dostoiévski (1821-1881), no qual o espetáculo se inspira, a complexa dualidade atravessa os séculos e se coloca como uma reflexão pertinente sobre os tempos atuais, incluindo os dilemas vividos no mundo e, claro, no Brasil.

Para transformar as contradições humanas expostas por Dostoiévski em uma experiência de teatro que exalta o que há de mais dramático (e também cômico) nesses conflitos, Karamazovianas conta com a força coletiva de um grande elenco. A direção é de Miwa Yanagizawa, com atuação das atrizes Flávia Pyramo (idealizadora da peça) e Rita Clemente. A dramaturgia é assinada por Pedro Bricio, com colaboração de Flávia, Miwa e Rita. A direção de arte é de Ronaldo Fraga, a direção de multimídia é de Cao Guimarães, a trilha sonora original é da banda mineira Diplomattas e a iluminação de Marina Arthuzzi e Jésus Lataliza.
O espetáculo estreia no dia 6 de novembro (sexta-feira) e estará em cartaz até 7 de dezembro, de sexta a segunda-feira, às 20h, no Teatro I do CCBB BH. Ingressos a R$ 30,00 (inteira) e R$ 15,00 (meia-entrada) pelo site ccbb.com.br/bh ou na bilheteria do CCBB a partir de 28/10.
As apresentações dos dias 14 e 28/11 contam com interpretação em Libras e no dia 28/11 haverá também audiodescrição. No dia 09/11 (segunda-feira), após a apresentação, o elenco do espetáculo realiza um bate-papo sobre o processo de criação da peça.
Entre o abismo e a esperança
No romance “Os Irmãos Karamázov”, o patriarca é assassinado e as suspeitas recaem sobre um dos seus quatro filhos. Karamazovianas leva essa investigação adiante, por um caminho pouco ortodoxo: as palhaças-cientistas Betinha (Flávia Pyramo) e Win (Rita Clemente) fazem a dissecação de Ivan Karamázov, o irmão intelectual e ateu, para descobrir como sua mente começou a entrar em colapso.
Entre o humor nonsense e a violência das ferramentas, o corpo de Ivan chega de maca sem cabeça, e é dela, a cabeça cindida entre razão e fé / Deus e o Diabo, que a peça se constrói. O público, conduzido pelas palhaças, segue o protagonista que encontra o Diabo: mas este não é o mal evidente e sim uma figura carismática, irônica, sombra que instiga Ivan a assumir o próprio lado obscuro. A dúvida sai do palco e é levada à plateia, convocada a assumir sua parcela de responsabilidade: afinal, nós, os “espectadores”, também somos culpados pelo mal do mundo?
Para Pyramo, idealizadora de Karamazovianas e atriz que vive Betinha e Ivan, as dualidades humanas, as contradições e a dúvida atravessam todo o livro e a peça. A atriz lembra a reclamação de um dos irmãos, Dimitri Karamázov: “Somos vastos demais, poderíamos ser mais estreitos”. Já a célebre frase de Ivan Karamazov ‘se Deus está morto, tudo é permitido’ leva à pergunta: o que fazemos quando perdemos nossas referências éticas e agimos só por interesse próprio? É uma reflexão muito atual sobre a responsabilidade por aquilo que se pensa, se diz e se propaga”, ressalta a atriz.
Segundo a diretora Miwa Yanagizawa, as palhaças-cientistas, com seu humor nonsense, mediam a relação com o público, não como uma tentativa de amenizar, mas de criar uma tensão, apontando para tantos absurdos naturalizados cotidianamente. Como a ambiguidade é um dos eixos dramatúrgicos do espetáculo, está presente em elementos visuais e sonoros que reforçam a tensão entre opostos.
“Nos livros de Dostoiévski, somos apresentados a um universo filosófico e sensível, marcado por conflitos existenciais, histórias extraordinárias e uma polifonia que se manifesta tanto nas circunstâncias sociais quanto dentro de cada indivíduo. As personagens são contraditórias e seus afetos podem, diante de uma mesma situação, passar da raiva para a alegria ou tristeza em um instante ou até mesmo senti-las todas ao mesmo tempo. Por isso, Karamazovianas foi concebida como uma espiral, em camadas, com deslocamentos de tempo e espaço para convidar o público a uma imersão no interior da cabeça de Ivan”.
Pyramo e Yanagizawa sublinham que os conflitos entre razão e a fé, ética e egoísmo, morte e vida são explorados como uma batalha interna, uma dúvida existencial que move Ivan e, por consequência, a narrativa. A peça convida o público a olhar para os conflitos humanos e sociais, estimulando a reflexão sobre temas universais como liberdade e responsabilidade. A pergunta poderia ser: Até onde nos levam nossa razão, nossa fé, a violência e o amor? Elas citam Dostoiévski: Deus e o Diabo estão em guerra e o campo de batalha é o coração dos homens.
Desafios da dramaturgia
Transpor Dostoiévski para o palco é sempre uma aventura artística e humana, relata Pedro Bricio, à frente da dramaturgia de Karamazovianas. “Dostoiévski fala com muita intensidade, profundidade e complexidade sobre contradições envolvendo religião, desejo, política e esperança. “Os Irmãos Karamázov” é considerado uma das maiores obras da literatura universal, justamente por ter muitos livros dentro dele, por ser infindável”.
O encontro entre Ivan e o Diabo gera muitas reflexões, em especial, sobre o mal e sobre sanidade. “É uma cena que fala de como as pessoas ficam à mercê do mundo e da violência inerente ao ser humano. Até onde podemos sucumbir? Há também uma ideia filosófica do fim do século XIX, consolidada por Nietzsche: a morte de Deus, como se o homem pudesse ocupar esse lugar. Foi o que aconteceu, de certa forma, pouco depois com a ciência”.
O principal desafio da adaptação, segundo ele, foi construir um contexto dramático que levasse até a cena de Ivan com o Diabo. “O livro é muito grande e essa cena é quase uma peça à parte, mas para a plateia usufruir tem que ter o entendimento do que veio antes. Fazer essa síntese em uma hora e meia não foi simples, mas é sempre muito prazeroso trabalhar com Dostoiévski e toda a sua intensidade para falar da alma humana e o que ela tem de mais solar e de mais sombrio. Não há herói nem vilão. O que ele fala tem muita força, é febril – os personagens são febris e os leitores ficam nesse estado, as coisas mudam, é tudo muito intenso, desejos, culpa, medos. Isso é muito bonito, prazeroso e bom para o teatro. O teatro gosta dessa intensidade dramática”.
A origem de Karamazovianas
A relação entre Flávia Pyramo e Fiódor Dostoiévski não vem de hoje. Apaixonada pelo universo do autor, ela já levou ao palco uma de suas grandes protagonistas – Nastácia Filíppovna, anti-heroína do livro “O Idiota”. A peça Nastácia, de 2019, aclamada com o Prêmio Shell e APTR, tem praticamente toda sua equipe envolvida em Karamazovianas. “Considero esta peça, inclusive, a continuação de uma pesquisa iniciada com Nastácia, feita pelos mesmos criadores”.
Pyramo diz que a ideia da peça surgiu do impacto que a literatura dostoievskiana sempre provoca em sua vida. Nesta obra, esse impacto se manifesta como um assombramento diante do processo de colapso de Ivan. Dali veio a vontade de entrar na mente dessa figura gigante da literatura, Ivan Karamázov, e dar corpo às vozes que o dividem. Já o título da peça vem das palavras de Dostoiévski: “Somos naturezas amplas, karamazovianas, capazes de conter todas as contradições e contemplar, de uma só vez, ambos os abismos: o abismo dos mais altos ideais e o abismo da queda mais vil e funesta.” Além de Dostoiévski, duas outras obras são referências para a criação de Karamazovianas – o texto “Para acabar com o juízo de Deus”, de Antonin Artaud, e o conceito “corpo sem órgãos”, de Deleuze e Guattari. “Gostaria que o espetáculo fosse, também, um convite a ler as obras de Dostoiévski e desses autores geniais”, ressalta Flávia Pyramo.
Direção de arte é assinada por Ronaldo Fraga
A ambiguidade de Karamazovianas foi o que pautou a direção de arte da peça, assinada pelo estilista e artista visual Ronaldo Fraga. Segundo ele, os contrastes, o drama e a comédia habitam a mesma tessitura. “Tem algo de denso, do que está nas vísceras, e algo da pureza infantil. Esses extremos podem ser vistos em cena, na direção de arte que teve como referência obras do pintor italiano Caravaggio. A pessoa olha um quadro e parece ver uma fratura exposta, uma camada abaixo da pele, o sangue. O cenário traz esse vermelho-sangue e, por outro lado, está sobre uma plataforma de cor clarinha”.
O contraste temporal também se percebe no palco, conta Ronaldo Fraga. “Por mais que o cenário e o figurino levem o público para o final do século XIX, período em que a peça foi escrita, ele também te joga no futuro. Tem uma abordagem contemporânea que segue a linguagem da ambiguidade. A começar pelo cartaz de divulgação da peça. Você não sabe se aquilo te provoca pela composição quase infantil, com recortes de papel sobre o rosto da atriz, límpida e branca, em contraste com o vermelho. Ou se aquilo te provoca estranheza, pela distorção do rosto dela, impresso sobre o papel cortado”.
FICHA TÉCNICA
Tradução (Os Irmãos Karamázov, de Dostoiévski) e consultoria teórica: Paulo Bezerra
Dramaturgia: Pedro Brício
Colaboração dramatúrgica: Flávia Pyramo, Miwa Yanagizawa e Rita Clemente.
Direção: Miwa Yanagizawa
Elenco: Flávia Pyramo e Rita Clemente
Direção de arte: Ronaldo Fraga
Direção de multimídia: Cao Guimarães;
Iluminação: Jésus Lataliza e Marina Arthuzzi
Trilha Sonora: Gabriel Martins, Heberte Almeida, Kim Gomes e Robert Frank (Diplomattas)
Interlocução Artística: Vinícius de Souza
Assistente de arte: Sarah Nogueira
Coordenação de Comunicação: Nathália Alves
Designer: Paola Menezes
Assessoria de Imprensa: M!ra
Coordenação de Prestação de Contas: Letícia Napole
Produção Executiva: Obirin Produções
Direção de Produção: Agentz Produções
Idealização e coordenação Geral: PyrAmo ProArte
SERVIÇO: ESPETÁCULO KARAMAZOVIANAS
Data: 6 de novembro a 7 de dezembro
De sexta a segunda, às 20h
Local: Teatro I – Centro Cultural Banco do Brasil Belo Horizonte
Classificação indicativa: 16 anos
Duração: 90 minutos
Ingressos a R$ R$30,00 (inteira) e R$15,00 (meia-entrada) através do site ccbb.com.br/bh ou na bilheteria do CCBB.
Bate-papo com o elenco: 09 de novembro após a sessão
Sessão com tradução em Libras: 14 e 28 de novembro
Sessão com Audiodescrição: 28 de novembro
Centro Cultural Banco do Brasil Belo Horizonte
Endereço: Praça da Liberdade, 450 – Funcionários – Belo Horizonte – MG
Telefone: (31) 3431-9400
E-mail: ccbbbh@bb.com.br
Site: ccbb.com.br/bh
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