Dia do Patrimônio: “Matriarcas Geledés” homenageia lideranças negras de quilombos e territórios de BH
A força das mulheres negras como guardiãs da memória, da espiritualidade e da resistência cultural é o ponto de partida da segunda edição do projeto Matriarcas Geledés e a Resistência Negra em BH. O resultado do projeto com os retratos das matriarcas desta edição será apresentado no sábado, dia 22 de agosto, sábado, das 15h às 19h, na Irmandade Treze de Maio de Nossa Senhora do Rosário. O encontro reunirá as lideranças dos quilombos e guardas retratadas e o artista plástico Marcial Ávila na mesma semana em que celebramos o Dia Nacional do Patrimônio Histórico e Cultural (17 de agosto). A programação será gratuita e acessível, contando também com apresentações artísticas do dançarino Evandro Passos e roda de samba com Dóris do Samba. Ao final do projeto, as obras serão entregues simbolicamente às comunidades e às famílias homenageadas.

Para desenvolver os trabalhos, Marcial Ávila visitou os territórios, ouviu lideranças e construiu os retratos a partir de um processo coletivo de escuta e diálogo sobre memória, ancestralidade e representação. “Vejo a força das lideranças femininas na luta pela manutenção desses territórios. Por isso, além da importância que elas têm, a pintura do retrato em uma tela com pintura a óleo é uma forma de manter estas matriarcas eternizadas”, afirma o artista.
Ele relembra que na primeira edição fez o registro de três matriarcas — dos Quilombos Luizes, Mangueiras e Manzo — e duas delas já viraram ancestrais. “A proposta do projeto é de, aos poucos, ir retratando estas matriarcas que são uma referência na cultura tradicional. É uma forma de mostrar quem veio antes, para dar continuidade a estes trabalhos que elas desenvolveram, pois elas tiveram grandes lutas para manter vivo este legado”, explica Marcial Ávila.
As matriarcas homenageadas
Rainha Belinha — Irmandade Treze de Maio de Nossa Senhora do Rosário e Centro Espírita São Sebastião
Uma das homenageadas desta edição é Isabel Casimira Gasparino, conhecida como Rainha Belinha, Rainha Conga das Guardas de Congo e Moçambique Treze de Maio de Nossa Senhora do Rosário e da Federação dos Congados do Estado de Minas Gerais. Herdeira da tradição iniciada por sua avó, Dona Maria Casimira, Rainha Belinha é referência na preservação das culturas afro-brasileiras e das festas de Reinado em Minas Gerais. Filha de Isabel Casimira das Dores Gasparino, foi nascida e criada ativamente dentro das tradições rituais da cultura afro-brasileira cultuadas em sua residência, sede da Irmandade Treze de Maio de Nossa Senhora do Rosário e do Centro Espírita São Sebastião (fundado em 1933). No território, eles produzem ornamentos, alimentação, indumentárias, fardas, bandeiras, instrumentos, andores e outros elementos rituais para a celebração da festa do Reinado. Realizada por meio de cortejos, danças, cantos e rezas que mantêm suas raízes culturais sagradas.
Pesquisadora e guardiã dos saberes tradicionais, ela também atuou como co-diretora do filme A Rainha Nzinga Chegou, premiado em festivais nacionais de cinema, e muito significativo por ser parte do processo de passagem do legado de sua mãe. Durante as gravações, estava prevista uma viagem de sua mãe à Angola, a então Rainha Conga de Minas Gerais, mas com a morte de Dona Isabel, Belinha precisou substituir a mãe. Durante o vôo teve uma revelação espiritual fundamental para dar continuidade ao legado de sua mãe de retorno à África. “Foi uma travessia reversa, em um navio aéreo. Nela eu entendi que eu não estava sozinha. Eu sou muito grata a espiritualidade porque ela cuida de mim, me ajuda a caminhar”, conta a Rainha Belinha.
Lídia Martins de Araújo — Quilombo Família Souza
Representando o Quilombo Família Souza, será retratada a matriarca Lídia Martins de Araújo, escolhida pela filha e liderança quilombola Gláucia Cristine Martins Araújo. Figura central na preservação das tradições religiosas e culturais da comunidade, Lídia é lembrada como uma mulher forte, alegre, vaidosa e profundamente ligada à espiritualidade da Umbanda, tendo como suas entidades a Pomba Gira Cigana do Oriente.
Participante ativa do carnaval belo-horizontino, desfilava nos Bloco dos Inconfidentes, que mais tarde se tornou o Unidos do Santa Tereza, ela também atuou na defesa do território quilombola em momentos de disputa e ameaça à permanência da comunidade no bairro Santa Tereza. De personalidade forte, tomou frente em momentos de disputas pela manutenção do território do quilombo, e também é lembrada como uma mulher festiva.
“Fiquei muito feliz, porque acho que dá visibilidade para uma matriarca que já não está entre nós, mas que retrata a importância que ela tem. Minha mãe ensinou pra gente o amor incondicional” , destaca Gláucia. O retrato será inspirado em uma fotografia da matriarca ainda jovem, vestida de cigana durante um carnaval, preservando a imagem alegre e vibrante que permanece na memória da família.
Terezinha — Quilombo Mattias
No Quilombo Mattias, a homenageada será Terezinha dos Anjos Mathias Toledo, mais conhecida como Tia Terezinha, atual matriarca da comunidade e referência afetiva e cultural para as famílias do território. A escolha foi feita por sua sobrinha Luciana Matias, liderança quilombola, professora e articuladora cultural da comunidade.
“Minha tia é extremamente cuidadosa. Tia Terezinha é uma pessoa muito alegre, gosta de cantar e brincar. Ela atualmente está com a mobilidade mais reduzida, mas a gente repara que do nada ela está dançando, cantando uma música”, afirma a liderança. Descrita apaixonada pelo samba e pela música, Terezinha é soprano e já participou de corais. Ela mantém viva a tradição cultural do quilombo por meio do canto, da convivência comunitária e da presença nos encontros realizados no território.
O Quilombo Mattias completa 103 anos em 2026 e carrega uma história ligada à migração de famílias negras vindas da Fazenda Macaúbas, em Santa Luzia, para a construção de Belo Horizonte no início do século XX. Atualmente, a comunidade mantém vivas práticas culturais e religiosas afro-brasileiras, além de eventos tradicionais como o Samba da Matriarca e o Samba do Centenário.
O projeto
Idealizado pelo artista plástico Marcial Ávila, o projeto Matriarcas Geledés e a Resistência Negra em BH propõe um encontro entre arte contemporânea, memória afro-brasileira e preservação cultural. Mais do que retratos, as obras buscam construir registros simbólicos da permanência e da resistência negra em Belo Horizonte, reconhecendo mulheres que tiveram papel fundamental na sustentação espiritual, política e afetiva de suas comunidades.
A escolha das homenageadas aconteceu em conjunto com as lideranças dos territórios participantes, respeitando os vínculos comunitários e as histórias de cada local. As pinturas em óleo sobre tela dialogam com referências da cultura afro-brasileira e com elementos simbólicos ligados às religiosidades de matriz africana ou às tradições quilombolas e de reinados.
A segunda edição do projeto também evidencia a importância dos quilombos urbanos e dos territórios tradicionais de matriz africana na construção da memória cultural da capital mineira. Ao aproximar arte, ancestralidade e memória, o projeto “Matriarcas Geledés e a Resistência Negra em BH” reafirma o protagonismo das mulheres negras na preservação de territórios, tradições e saberes que seguem fundamentais para a história de Belo Horizonte. O projeto Matriarcas Geledés e a Resistência Negra em BH é realizado com recursos da Lei Municipal de Incentivo à Cultura de Belo Horizonte.
Lançamento das obras
A entrega das obras será celebrada com um encontro no dia 22 de agosto, sábado, das 15h às 19h. Para contar um pouco sobre a história das matriarcas e o processo da pintura, será feita uma roda de conversa com a presença das lideranças de cada território e o artista Marcial ávila, com a mediação da pesquisadora e jornalista Rosália Diogo.
Além da conversa, a celebração contará com a apresentação artística do dançarino Evandro Passos. Ele é Mestre em Artes Cênicas, ator, professor de dança afro e pesquisador em cultura Afro-brasileira com estudos voltados para compreender a cultura africana e as influências sobre a sociedade brasileira.
Outra atração será a apresentação musical “Dóris Canta Samba”, que valoriza o samba como matriz fundamental da musicalidade e da cultura brasileira. Com um repertório composto por músicas de compositores variados, que são sucesso nas vozes de grandes intérpretes nacionais. A cantora Dóris é conhecida no cenário do samba belo-horizontino como intérprete e pesquisadora. Ao longo de sua carreira, Dóris teve participações importantes com compositores e cantores como: Dona Ivone Lara, Leci Brandão, Ilê Ayiê, Luíz Melodia no projeto SESC MPB, dentre outros.
Sobre Marcial Ávila
Marcial Ávila é um dos principais nomes da arte contemporânea em Minas Gerais. Graduado em Artes Plásticas pela Escola Guignard/UEMG e pós-graduado em Estudos Africanos e Afro-Brasileiros pela PUC Minas, o artista construiu uma trajetória marcada pela valorização da cultura afro-brasileira. Natural da periferia de Diamantina, Marcial desenha desde criança e já participou como ilustrador de inúmeras publicações. Suas obras integram coleções no Brasil e no exterior, incluindo o acervo da Embaixada do Brasil em Roma, na Itália. Também é fundador do Instituto Cultural Casarão das Artes e da marca Chica da Silva, além de atuar em projetos de formação ligados à implementação da Lei 10.639/03. Com uso intenso das cores e forte presença de símbolos religiosos e ancestrais, seu trabalho se consolidou como uma importante referência visual das artes visuais contemporâneas em Minas Gerais.
SERVIÇO
Matriarcas Geledés e a Resistência Negra em BH – 2ª edição
Data: Dia 22 de agosto, sábado, das 15h às 19h
Atrações: Roda de Conversa com Gláucia Araújo (Quilombo Souza) , Luciana Matias (Quilombo Mattias) Rainha Belinha (Irmandade Treze de Maio de Nossa Senhora do Rosári), Marcial Ávila (artista), Rosália Diogo (mediação) | Apresentação de dança de Evandro Passos | Show “Dóris Canta Samba”
Local: Irmandade Treze de Maio de Nossa Senhora do Rosário – Rua Jataí, 1309, Concórdia
Entrada Gratuita
Mais informações nas redes do projeto: @matriarcas.geledes



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